Friedlieb Ferdinand Runge
Sidney Pacheco
Friedlieb Ferdinand Runge nasceu em Hamburgo na Alemanha, aos 16 anos se mudou para Lübeck e aos 22 anos iniciou sua graduação em medicina na Universidade de Berlim. Concluiu seu curso em 1919, no entanto, Runge nunca praticou medicina pois nos últimos anos do curso acabou se interessando pela química. Runge tinha especial interesse no estudo de substâncias venenosas presentes em plantas. Seu mestrado foi com o estudo da atropina, constituinte da planta belladona (Atropa belladonna).
Os resultados obtidos com o estudo da atropina chegaram ao conhecimento do famoso escritor e pensador alemão Goethe, este acabou por convidar Runge para demonstrar
o interessante efeito de dilatação da pupila (Midríase) causado pelo extrato de beladona. Runge foi ao encontro de Goethe e fez a demonstração aplicando o extrato da planta no olho
de um gato. Goethe ficou tão impressionado com o resultado que chegou a registrar os resultados em suas anotações.
Foi neste encontro que Goethe deu a Runge uma amostra de grãos de café torrado e sugeriu a ele que os incluíssem em suas pesquisas devido à possível presença de uma substância
com capacidade muito estimulante. Goethe estava correto, poucos meses depois do encontro Runge foi o primeiro a identificar e isolar a substância estimulante presente no café, a cafeína.
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Friedlieb Ferdinand Runge. |
Mas não é o interesse de Runge pelas substâncias de plantas que o liga a historia da cromatografia líquida. Runge acabou dedicando sua carreira profissional a dois temas,
a licenciatura de química, inclusive com a publicação de livros didáticos, e ao estudo de pigmentos para a indústria têxtil.
Ao estudar e desenvolver os pigmentos Runge acabou desenvolvendo uma técnica muito eficiente para a separação dos componentes das misturas de pigmentos, ele utilizava
um pequeno disco de papel onde depositava na região central uma gota da mistura de pigmentos, com o tempo o papel absorvia a tinta e através do efeito da capilaridade
o solvente da tinta ia se deslocando do centro do papel em direção à borda. O resultado final era uma figura formada onde era possível visualizar os diversos
componentes da tinta separados. Entre 1930 e 1950 Runge publica três livros dedicados à Química da Coloração.
As figuras autoformadas em papel filtro de F.F. Runge
Sidney Pacheco
“Der Bildungstrieb der Stoffe veranschaulicht in selbständig gewachsenen Bildern: (Fortsetzung der Musterbilder)” (1855) e “Das Od als Bildungstrieb der Stoffe : Veranschaulicht in selbstständig gewachsenen Bildern” (1866) de F. F. Runge. |
Após sua aposentadoria, Runge dedicou o seu tempo livre a produzir e vender livros com as separações de pigmentos em papel de filtro. Alguns exemplares ainda estão disponíveis para consulta em bibliotecas de obras raras, e são colagens dos filtros em cartolina, sempre acompanhadas de legendas com a composição da mistura de pigmento utilizada.
É interessante destacar que estes livros são atualmente mais citados e consultados por historiadores da arte e como forma de expressão artística
do que por historiadores da ciência.
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A reprodutibilidade dos experimentos de Runge
Sidney Pacheco
Em seus livros Runge tem a preocupação de demonstrar que seus experimentos de separação de pigmentos são reprodutíveis, para isso sempre colocava dois papéis de filtro da mesma separação, o que pode ser visto na figura ao lado. As colagens dos papéis de filtro sempre acompanhavam as fichas com os detalhes da mistura de pigmentos separada além dos detalhes da separação. Runge certamente se deu conta da importância da reprodutibilidade, fundamental para qualquer ferramenta analítica. |
Páginas do livro de 1855 de F.F.Runge ilustrando a reprodutibilidade de suas separações, realizadas sempre em duplicata. |
BUSSEMAS, H. H.; ETTRE, L. S. Forerunners of Chromatography: Runge’s Self-Grown Pictures. Milestones in Chromatigraphy, v. 22, n. 3, 2004.